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Dendera

Templo de Hathor, Dendera - 2025 - Rolleiflex 3.5A - Fomapan 400 - revelação caseira com caffenol
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Qena, 14 de Novembro de 1890


Passei a noite em uma pequena residência em Qena. Minha insônia me manteve acordada tempo suficiente para prosear com Marte, que se destacava dentre os astros de menor brilho. Seus conselhos, como sempre, envolviam batalhas e rupturas numa língua universal e áspera. Penso que esse diálogo mental tenha se deixado transparecer no campo terreno, pois logo minha anfitriã apareceu trazendo consigo chá de hortelã e uma manta de algodão. A barreira linguística nos separava, mas retribuí o gesto com o mais honesto shokran que pude oferecer. Ela sorriu, e naquele vão escuro entre os lábios eu vi a passagem livre para uma alma que já não precisava de adornos para encantar. Seu nome era Fatma, uma senhora idosa, viúva, sem filhos, que vivia da tecelagem e da bondade de Allah. Nosso encontro ficou por algum tempo suspenso naquele gesto simples, como se algo em nós tivesse se reconhecido. O vento do norte soprou, Marte silenciou. Hora do descanso.


Despertei num templo. A música preenchia o todo e um rumor metálico anunciava a presença primária. As colunas, em vez de pedra, erguiam-se de um resplendor dourado e móvel. Fatma ofertava ninféias azuis para uma criatura que minha linguagem não é capaz de decodificar. O mel vertia do chão e alimentava o mundo; o ar cheirava a jasmim e o espaço parecia dobrado sobre si mesmo, em reverência. Havia um espelho, uma fusão, camadas sobrepostas de agências femininas eternas, imortais, potentes. A Grande de Muitos Nomes cantava. Sua voz me nutria. Onde deveria estar Fatma, estava eu. Onde deveria estar eu, estava ela. Onde deveria estar a Deusa, estávamos nós. A canção era o próprio sol que me acompanhava desde sempre.


"Todo o caminho leva ao centro."


O canto cessou. 


É madrugada e Fatma se aconchega em seu leito de cordas. Junto dela, sua mascote Sat, uma cadela rafeira cor de areia, faz a vigília. Em algumas horas partirei rumo a Dendera. 

Agora me pergunto se algum dia saí de lá.


Os sistros nunca deixam de ecoar.


Cadela no templo de Hórus em Edfu - 2025. - Rolleiflex 3.5A - Fomapan 400 - revelação caseira com caffenol
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