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O Lugar da verdade

Atualizado: há 3 dias

Deir el-Medina, 7 de Outubro de 1890.


Cheguei pela manhã. O calor do deserto ainda era intimidado pela brisa que vinha do rio. Foge-me à compreensão o que veio a seguir. Não posso dizer se o que meus olhos testemunharam foi real, fruto da imaginação ou um pacto entre ambos. Algo como um portal, fenômeno etéreo ou sei lá como os dados a acontecimentos fantásticos nomeiam tais prodígios.

Pude perceber a ta rekhet, aquela mulher de cabelos grisalhos entrançados com contas de lápis-lazúli, que ocupava seu lugar sob a acácia e distribuía conselhos aos jovens.

Um grupo de crianças perseguia padrões de luz nas paredes de adobe e brincava entre risos e dança, sob a proteção de Bes.

Os servos enchiam os odres com a água que traria alívio ao longo do dia. O burrico parecia-me um velho conhecedor da rotina, pois resmungava como se o carregamento demorasse mais que o habitual.

Quando, afinal, puxariam as rédeas?

As senhoras da casa geriam o cotidiano circulando pelas ruas como barcos de fino calado. Seus vestidos de linho transparente eram (quase) tão puros quanto os das próprias rainhas e ondulavam a cada passo.

Continuei meu percurso observando aquelas pessoas que pareciam não se importar com minhas vestes, minhas botas de couro gasto ou o fato de eu ser uma mulher de curiosidade aguçada e nenhuma cerimônia em minhas investigações. Naquele contexto, era confortável passar despercebida como a fumaça do incenso que queimava e perfumava o ar. Seu aroma me perseguia enquanto eu subia a colina para averiguar o som que vinha da necrópole.

O labor constante ritmava os instrumentos como se o tempo tivesse mãos. Um aprendiz rascunhava em calcário e confidenciava ao mestre sobre a musa que lhe oferecera um sorriso no caminho para a oficina.

Seria ele capaz de imaginar que tal obra apaixonada atravessaria milênios, encantando entusiastas de coleções além-mar? Duvido.

Em Set Maat, os deuses encarnados são relegados ao papel de coadjuvantes: pano de fundo para a glória daqueles que, com reverência e arte, erguiam o mito dos grandes.

Se fui enganada ou presenteada pelos séculos, não saberei dizer.

Certos delírios guardam mais verdade do que as próprias evidências.

Conservarei na lembrança esta pequena aventura no entretempo com a convicção de que o legado dos subalternos sempre há de me fascinar mais do que qualquer ouro régio.


Deir el-Medina, Luxor - 2025 - Rolleiflex 3.5A - Fomapan 400 - revelação caseira com caffenol
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