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Papiro #01 — o sicômoro que chorou flores

Fragmento de Papiro Sapiencial Tardio, de origem tebana (XXVI Dinastia), traduzido e adaptado por M.A.C.M.


Havia um sicômoro que vivia cativo de sua própria estirpe. Plantado no jardim do soberano, suas raízes vergavam-se contra os muros. Um débil epíteto de grandeza.


Então, sobreveio a guerra. As muralhas desmoronaram-se em lamentos, e os estandartes da linhagem real, outrora altivos, murcharam no chão. A extinção remodelara sem piedade o palácio posto em ruína.


As raízes do sicômoro espichavam-se entre detritos e lágrimas vertidas. Do padecimento inevitável, absorveu uma seiva outra. Libação, e por ela, libertação.


Decorrido algum tempo, aproximou-se um viajante. Cegos pela aridez da planície devastada, seus olhos, tomados de esperança e quimera, divisaram uma romeira. No íntimo, imaginou o fruto rubro ao alcance da mão; o suco terno a escorrer pela barba. Avançou; deteve-se. A desilusão tomou-o quando tudo que recebeu da munífica copa fora… sombra.


Então, o sicômoro chorou. Suas folhas desprenderam-se em abundância, inundando a terra. O viajante, alheio aos figos ocultos, partiu com um suspiro amargo.

A brisa levou os passos. A poeira repousou. A última expectativa alheia soltou-se de seus ramos. Na absoluta plenitude, o sicômoro contentou-se em ser, simples e gloriosamente, uma árvore.



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